O primeiro encontro

ATENÇÃO, O POST ABAIXO CONTÉM SPOILERS DO LIVRO “A ORIGEM”. SE VOCÊ NÃO GOSTA DE SPOILERS E AINDA NÃO LEU O LIVRO, NÃO CONTINUE LENDO!

Essa cena está no capítulo 07 do livro “A Origem”, Encontros, mais precisamente iniciando na página 149 do livro impresso (versão Bookess, Clube de Autores e GrafBand). Decidi escrevê-la pelo ponto de vista do Henry, em primeira pessoa, para que o leitor possa ter a sua perspectiva do primeiro real encontro entre ele e Heather – que culminou com a aceitação do que eles sentiam um pelo outro.

Eu não sabia o que queria. A verdade era que, pela primeira vez em muito tempo, eu tive dúvidas quanto à minha sensatez – eu não estava sendo nem um pouco sensato. Levar um vampiro de poucos anos de idade para um lugar cheio de humanos suados era uma péssima ideia. O calor dos seus corpos, as veias pulsantes, o sangue correndo rapidamente em seu organismo; tudo aquilo era um convite ao banquete. O pobre Wesley não teria a menor chance de reprimir seus instintos, ele ainda era muito jovem para controlar-se.

Mas eu não estava levando nada daquilo em consideração, apenas que eu tinha muita vontade de vê-la. Eu queria vê-la, simplesmente, e aquilo estava me consumindo como o fogo consome a mata seca no verão. Eu estava velho demais para sentir qualquer coisa que se assemelhasse a uma paixão adolescente; eu tinha certeza que não era nada demais. Mas eu precisava vê-la, e minha timidez não me autorizava sair sozinho.

Estávamos nós dois no Clayton’s, um bar rústico e típico de cidade do interior. Eu já tinha visto cidades demais para incomodar-me com o clima bucólico de Graceland. Eu até mesmo gostava. Wesley estava agitado e ansioso, parecendo com o garoto que eu vi morrer em minha frente, e que, por egoísmo, decidi tornar imortal. Eu posso dizer que era um ser egoísta; eu dei a Wesley a vida eterna, sem sequer perguntar se ele a queria, por puro capricho, e eu colocava toda uma cidade em risco para ceder a uma tentação que um vampiro jamais deveria ter.

Eu nem mesmo podia beber o sangue dela. Não podia ser uma atração de sangue, não podia ser aquilo.
O bar estava escuro e cheirando a fumaça. Havia muita gente fumando e a banda country local tocava uma música ruim. Eu gostava de música, mas era muito seletivo quanto ao que ouvia. As pessoas ali não pareciam tão criteriosos, no entanto. Tão logo chegamos, perdi Wesley de vista. Ele estava rápido demais, pegou uma bebida e saiu para conversar com um grupo de garotas que estava próximo. Eu não sabia como ele pretendia virar-se com a cerveja, afinal ele ainda não estava treinado para alimentar-se com qualquer coisa que não fosse sangue. Decidi recostar no balcão e observar o movimento, enquanto meus dedos pressionavam com pouca força o vidro verde de uma garrafa de cerveja – uma marca que eu nem sabia que existia.

Foi então que eu senti a sua presença. Era interessante como dois dias com ela pudessem fazer tanta diferença. Eu já podia senti-la. Eu tinha certeza que ela estava naquele bar, eu soube no momento em que ela entrou pela porta. E eu ainda não a tinha visto. Meus dedos travaram ao redor da garrafa, meus músculos enrijeceram. Minhas presas quase saltaram para fora da minha boca. Eu tinha um controle invejável de minha realidade, mas eu não parecia muito comigo mesmo, naquele instante. Ergui sutilmente os olhos na direção em que ela deveria estar, e pude visualizar sua face encarando-me no meio da multidão. Um sorriso deselegante fez erguer os cantos de meus lábios, enquanto eu cogitava a hipótese de que ela quisesse me ver ali tanto quanto eu quis vê-la.

Eu estava sendo tolo. Era fácil enganar-me, eu estava rendido.

Os jeans que eu vestia me incomodavam; eu me sentia um prisioneiro da minha própria vestimenta. Tentei ficar parado, sem respirar, sem mover um músculo, na intenção de não ser notado por ela; na intenção de não permitir que minha reação entregasse meu estado de espírito.

Ela estava com uma amiga humana que eu ainda não conhecia. Vestia uma blusa azul que providencialmente escondia as veias saltadas de seu pescoço, e usava jeans, como eu. Não, ela não era nada como eu; ela era pura, iluminada. Ela era um Anjo, e eu, uma criatura amaldiçoada das trevas. O quão clichê aquele pensamento não era? Percebi-me lamentando não conhecer nada sobre ela ainda, apenas um pouco sobre o ser sobrenatural que ela era. Wesley tocou-me no ombro e reclamou que eu não estava dando-lhe atenção alguma.

— Eu vi duas pessoas que conheço, ali. – Ele apontou para um monte de garotas, e eu fingi identificar de quem ele falava. – Tem problema interagir com elas?

— Não, não tem. – Eu sorri para minha criatura. Ele era tão bonito, tão jovem, tão cheio de uma energia vital que já tinha me deixado há séculos. – Divirta-se, Wes, apenas controle-se. Se você sentir que o controle está te deixando, você me avise.

— Aquela ali é o Anjo que me envenenou? – Wesley pensou em erguer o braço para apontar na direção de Heather, mas felizmente desistiu. Ele estava com a visão boa demais, aquilo era parcialmente irritante.

— Sim, creio que sim. Vá ver seus amigos, Wes. Eu estarei bem aqui, se precisar.
Despachei minha criatura sem sequer considerar o risco que aquilo causava. Risco, porque Wesley era instável. Risco, porque eu ficaria sozinho. Risco, porque ela vinha exatamente em minha direção.
Heather caminhou desajeitadamente por entre pessoas, ziguezagueando até tropeçar, literalmente, em uma ruiva de olhar gelado e vestes inadequadas até para os dias de praia. Imediatamente, algumas pessoas voltaram a sua atenção para o grupo de mulheres, porque a ruiva não parecia satisfeita com o ocorrido e protestava em alto som. Ah, mulheres, sempre elas. Tão hormonais, e tão irresistíveis. Não pude evitar projetar meu corpo na direção dela e aproximar-me da discussão. Eu sabia que tinha passado a ser o centro das atenções, mas aquilo era irrelevante. Eu sempre era o centro das atenções.

— Você está bem? – Eu disse, segurando-a pela mão. O contato da pele quente dela poderia ter-me causado uma queimadura. Ela tinha um cheiro confuso de flores e manhã, como se estar perto dela fosse como acordar em um dia de primavera. Eu quis perder-me examinando os seus detalhes, mas outra coisa demandava minha atenção: a garota ruiva. – Uma pena que tenha ficado sem sua bebida, mas se você for até ali – apontei, instintivamente, para onde estava Wesley – meu amigo poderá lhe pagar outra.

Ela riu, hipnotizada. Eu não precisava mais usar minhas habilidades, as garotas costumavam aceitar minha lábia com bastante facilidade.

— O que você… – Ela iniciou um discurso, mas não completou a frase. Ela olhava para mim, mas não parecia sob o efeito de nenhum feitiço. Eu duvidava que conseguisse enfeitiçar os Anjos.

— Eu decidi trazer Wes para um passeio. – Eu entendi o que ela queria. Claro que encontrar-me ali era um choque para qualquer pessoa que soubesse o que eu era – como aceitar vampiros convivendo harmoniosamente entre humanos? Nada natural, aquele comportamento condizente com minhas atitudes naqueles dias.

— Eu pensei que você… quero dizer, que vocês… eu pensei que não pudessem…

— Podemos. – Uma graça, ela perdida nas palavras. A sua pele alva expunha muito mais do que eu suportava ver, mas eu não conseguia parar de olhá-la. Se ela não tivesse envenenado Wesley eu teria que desconfiar de sua humanidade, porque ela era sobrenaturalmente muito mais perfeita do que qualquer uma das mulheres que eu já tinha visto, ou me relacionado. – Mas não fazemos. Questão de simplicidade. Para que nos submeter gratuitamente à dor que o aroma do sangue humano nos causa, se podemos simplesmente evitá-la? – Eu disse, quase me esquecendo do quanto eu falava baixo, em situações de stress. – Mas hoje eu quis sair.

— Ahem! – A amiga dela pigarreou, insatisfeita por ter sido excluída da conversa. Era como se, naquele momento, entre nós, tivesse se formado uma barreira que nos separasse do resto do universo. Clichê.

— Kristen. – Heather disse, a voz fraca e aguda. – Esse é o Henry, eu o conheço… da universidade.
A hesitação dela foi palpável, era possível senti-la no ar. Eu duvidava que ela fosse capaz de explicar de onde ela me conhecia, ou como ela me conheceu. Claro que era um segredo, e claro que ela não sabia o que era, antes de me conhecer. Segurei a mão da amiga, Kristen, e beijei-a. A mão dela estava gelada, ao contrário da de Heather. Talvez fosse o frio, eu não queria acreditar que a minha simples presença agitasse tanto os humanos.

— Você quer beber alguma coisa? – Voltei minha atenção para Heather, porque era com ela que eu queria me socializar. As outras criaturas naquele espaço não me interessavam; ninguém ali era relevante para mim, além dela. Ela tinha os olhos abertos em surpresa constante, como se tudo que acontece ali pertencesse a outra dimensão.

— Você bebe? – A surpresa pareceu genuína, em seu semblante lívido. Ela tinha os olhos direcionados para minhas mãos, e eu tinha certeza que a cerveja estava quente.
— Não. – Dei uma risada, e notei que ela ficou bastante incomodada com isso. Eu não entendi por que, mas ela fechou as mãos em punhos e enrijeceu o corpo de uma forma característica. Eu não me irritava com quase nada, e observar nela aquelas emoções tão humanas era um deleite. Um privilégio, devo admitir, considerando a inviabilidade de um relacionamento daquela natureza. – Mas eu não posso deixar de provar isso aqui.

— Cerveja. Não conhecia?

— Não essa marca.

— Você pode ficar bêbado?

— Eu posso, mas acredito que não vou. – Dei outra risada, e ela mostrou-se ainda mais indignada. Foi então que eu entendi, havia um grupo de garotas prestando mais atenção em mim do que deviam. Algumas cidadãs ilustres da cidade, mas nada que não fosse considerado alimento. – Tem alguma coisa incomodando você. Não precisa se dar ao trabalho de irritar-se com elas, tudo que são para mim é refeição.

Ela reprimiu uma risada, mas eu sabia que ela estava nervosa. Ansiosa, talvez; havia muita adrenalina correndo em suas veias. Eu podia cheirar a adrenalina, e era um aroma fantástico. Eu precisava espantar aqueles pensamentos de mim; eu não tinha o direito nem a autorização de desejá-la daquela forma. Ela era um Anjo, e, por consequência, intocável por uma besta como eu.

Antes que eu pudesse ficar constrangido com o silêncio, Wes intrometeu-se a fim de oferecer um drinque a Heather. Sorrindo, ele entregou a ela um copo preenchido de líquido avermelhado que serviu apenas para instigar ainda mais minha sede. Como ele ousava sugerir que ela bebesse um Bloody Mary? Minha boca salivou, minhas presas assanharam-se e eu não sabia mais quanto tempo resistiria àquela provação. A amiga voltou para perto de nós, e o calor humano foi o suficiente para expulsar-me. Agarrei Wes pelo braço e arrastei-o até o banheiro; eu precisava acalmar meus ânimos. Henry Austin nunca perdia o controle; eu não sabia quem era aquela pessoa que me havia tomado o lugar.

— O que houve? – Minha criatura questionou-me, ao ver-me tão transtornado. Eu estava apoiado com as duas mãos sobre a pia branca e olhava para meus olhos vermelhos no espelho, sem esperanças. Meu lábio inferior havia se rompido exatamente no lugar onde uma das presas tinha forçado um espaço para fora.

— Está tudo bem, Wes. – Menti descaradamente, e ele sabia. – É a garota, ela me deixou um pouco ansioso.

— Percebi, por isso interferi. – Ele sorriu. – Quer ir embora, ou tem condições de continuar?
Antes que eu perguntasse a ele como era possível tanto controle em um novato, meus ouvidos captaram Heather e Kristen em uma conversa relativamente interessante. Coloquei a mão no ombro de Wesley e indiquei que precisava de um minuto de silêncio.

— Heath, diz o que tem na sua água! Sério mesmo, primeiro é Antoine, que cai de amores por você; aquele Francês lindo com aqueles olhos azuis e aquele furo no queixo. E agora é essa pintura de Rafael Sanzio que caiu de paraquedas em Graceland!

— Você bebeu demais. O que é isso? Tequila?

— Não desconverse. Você sabe do que estou falando! Todos os homens lindos se interessam por você, como pode isso? Não que você não seja interessante, mas é como se você fosse abençoada!

— Não seja ridícula, Kristen. Diga, onde está Geoffrey? E não tem nada entre mim e Henry; não sei de onde tirou essa ideia tola. Ele é só um amigo.

Eu era um amigo? Meus dedos aumentaram a pressão no ombro de Wesley, porque ser amigo do Anjo era tudo que eu não poderia. Na verdade, a hipótese era absurda. Primeiro, porque ela jamais me desejaria como amigo. Segundo, porque eu jamais poderia conviver com ela sem aquela reação ridícula de vampiro adolescente.

— Acho que eu deveria procurar Geoffrey, mesmo. Afinal, ele deveria estar comigo, certo?

— Sim, certo. Vá atrás dele, e se precisar de carona para casa, me encontre.

O afastamento da amiga era tudo que eu desejava que acontecesse. Não que Kristen me irritasse; eu sequer a conhecia o suficiente para sentir-me incomodado em sua presença. Mas eu preferia o conforto de quem já conhecia a minha condição sobrenatural; eu preferia estar sozinho com Heather. Saí do banheiro mais controlado, deixando Wesley para trás, e indo na direção dela. A humanidade nela era tão interessante, e ela me deixava tão absorvido que mal percebi que ela virava para mim no mesmo instante em que eu me aproximava o suficiente para sentir o calor de sua pele. Segurei o copo de Bloody Mary, segurei seus dedos, segurei sua pele na minha enquanto ela trombava displicentemente comigo. Aquela sensação era esquisita demais.

Ela demorou um minuto ou dois antes de olhar para mim. Estávamos próximos demais. Coloquei o drinque dela sobre o balcão; a melhor opção era parar de tocá-la. Mas ela não parou de tocar-me. Quente, nós contrastávamos como o inverno e o verão, tudo em uma só estação. Eu estava sério e meu cenho franzido indicava toda a minha confusão. O ambiente silenciou-se, e eu parei de considerar a presença de outras pessoas quando decidi olhar para ela, e só para ela, e nada mais importava, nada mais era relevante.

— Você quer saber? – Eu não sabia por que estava dizendo aquilo.

— Saber o que?

— Por que todos os rapazes se interessam por você. – Novamente, eu não sabia aonde aquilo iria me levar. Só tinha certeza que era um lugar inexplorado e muito, mas muito arriscado.

— Isso é mentira. E… como você… – Ela perdeu-se nas palavras novamente, e aquilo ainda era irresistivelmente sensual.

— Eu ouço melhor do que você imagina. Lamento, não queria ouvir sua conversa, mas o banheiro é logo ali – Apontei para a imagem de um vaqueiro que iluminava a portinhola de madeira escura. – e foi impossível não ouvi-las. Sua amiga fala muito.

— Ainda assim, é invenção da cabeça fértil de Kristen.

— Não é. – Meus lábios sorriram, contra a minha vontade. Fiz com que ele s voltassem ao estado de seriedade que representava aquele momento. – Você é interessante, Heather. Sua condição sobre humana, sua inteligência incomum. Você é um território inexplorado e isso atrai os homens. Mas, por que suspeito que isso não te deixe animada?

— Porque não quero ser atraente.

— Os homens não te atraem. – Eu não queria saber se aquela constatação era verdade.

— Os humanos, não.

A realização daquela verdade atingiu-me a face como um sopro gelado de ar. A parte otimista que ainda residia em mim queria acreditar que ela não se interessasse pelos humanos porque ela já estava interessada – em mim. A parte realista que me dominava empurrava o otimismo para dentro e gritava que aquele Anjo jamais se interessaria por uma criatura como eu. E havia, ainda, a parte lógica que me dizia ser impossível estar tão atraído por uma garota que eu nem mesmo conhecia.

Essa parte tinha certeza que eu não podia estar apaixonado.

O otimismo prevaleceu, pela primeira vez em séculos, e decidi tomar uma atitude insana. Ergui a mão e toquei-a na face, forçando-a a me olhar. Eu queria seus olhos nos meus, eu queria tocar a pele dela mais uma vez. Minha respiração era cadenciada e eu lutava para controlar meus impulsos. Aquele comportamento era uma antítese de quem eu era, mas eu não conseguia evitá-lo ali, naquele instante, com aquele cheiro de problemas no ar. Permiti-me acariciar sua face; meus dedos correram por seus cabelos, aqueles longos cabelos loiros que pareciam a palha do milho, de tão pálidos.

— Eu não sei o que estou fazendo. – Eu não pretendia dizer aquilo, mas meus pensamentos se verbalizaram contrários à minha vontade. Eu olhava para ela fixamente, e minhas mãos já tinham se posicionado bem abaixo de sua face suave; em seus quadris, os dedos segurando firme na carne morna, nos jeans que combinavam com ela tão bem. Ela estava muito perto de mim quando percebi o que eu pretendia. Nossas roupas se tocavam, e baixei a cabeça para aproximar meus lábios dos dela. Ainda sentia o gosto do meu próprio sangue na boca quando percebi que estávamos nos tocando, testa com testa, jeans com jeans; nossa respiração parecia uma só. E eu a queria ainda mais perto, e podia sentir que não parava de puxá-la para mim.

Mas aquilo estava errado. Fechei os olhos e forcei-me a retomar a sanidade. A parte lógica, racional, comedida, precisava predominar e expulsar de mim aquele adolescente que me rompia a alma. A alma que eu nem mesmo sabia se tinha, ou se havia perdido há mais de quinhentos anos. Mal percebi quando minhas mãos desprenderam-se de Heather; apenas desapareci de dentro do bar na velocidade que apenas eu poderia desenvolver. Esqueci-me de Wesley, esqueci-me de que eu era um vampiro e as pessoas não sabiam, esqueci-me de que elas nem mesmo poderiam saber. Não me importei com nada, porque tudo que eu queria era livrar-me daqueles desejos mundanos que não me pertenciam.

Abri a porta do Mercedes e sentei-me no banco do motorista, respirando um pouco mais forte do que qualquer ser humano ao meu redor. O estacionamento estava quase vazio, o que me garantia alguns minutos de privacidade. Minhas mãos firmes seguraram o volante de couro, e meus olhos se fecharam por instantes. O que eu estava fazendo, era a pergunta que pulsava em minha cabeça. Virei a chave na ignição e dei a partida no carro, porque eu ia embora daquele lugar. Minha criatura podia ir embora depois, ou podia ficar perdida por ali, ou tanto fazia. Apertei o acelerador sem pena de espalhar areia por todo lugar, e arranquei cantando pneus.

Da mesma forma abrupta que eu acelerei eu tive que frear. A areia fez o carro deslizar, e eu joguei todo o peso do meu corpo sobre o pedal do freio quando a imagem de Heather apareceu no meu para brisa, olhando assustada para a Mercedes. Louco, era aquele Anjo, atirando-se na frente de um carro em movimento. Saí do carro descompensado e segurei-a pelos dois ombros, mantendo-a de pé e descarregando minha ansiedade. Havia pessoas nos olhando, mas eu as ignorava. Eu sabia que ela não estava ferida, não havia sangue derramado pelo chão nem nada parecido. Meu coração martelou em meu peito algumas vezes, e tudo aquilo me fazia sentir vivo.

— Você está bem? – Perguntaram. Eu ouvi apenas uma voz feminina gutural. – Você se machucou?

— Ela está bem. – Confirmei em voz alta.

— Quer que chame um médico? – Outra pessoa perguntou, uma voz masculina daquela vez. Minha visão estava turva, eu só conseguia ver o semblante apavorado e aliviado daquele Anjo.

— Não será preciso. – Confirmei mais uma vez. – Eu vou levá-la para casa, podem deixar.

— Não, eu não vou para casa agora. – Ela resolveu mostrar que não estava em estado de choque e debateu-se em meus braços. Eu nem percebi que a tinha puxado para mim daquela forma; ela estava realmente em meus braços, ocupando o espaço entre eles e meu peito, o calor de sua pele me fazendo sentir agonia.

— Está tudo bem Heather… – sussurrei nos ouvidos dela, movendo os lábios bem devagar. – Wesley. Você dirige o carro dela? – Ergui o olhar e encarei minha criatura. Ele já tinha chegado ao estacionamento, e o brilhantismo dele me encantava. Ele parecia tão confortável como vampiro, o que era fantástico. Entreguei a ele a bolsa de Heather e arrastei-a para a Mercedes, atando o cinto e forçando-a a ficar quieta. Ela protestava alguma coisa, mas eu fingia não ouvir. Dei novamente a partida no carro e guiei-nos para fora daquele lugar cheio de pessoas. Eu ia para o lado errado, considerando que pretendia levá-la para casa. Meu cérebro conduzia-nos até a hospedaria, e aquela ideia era péssima. Heather calou-se, finalmente, depois de alguns minutos, e cruzou os braços, demonstrando constrangimento e apreensão. Eu respirava aceleradamente, meu coração ainda batia sem ritmo, e minhas presas forçavam passagem em minha boca o tempo todo.

Eu queria meu controle de volta. Eu não sabia como recuperá-lo.

Antes que eu fizesse uma bobagem, parei o carro e saí, as mãos na cabeça, pressionando as têmporas. Ah, Heather, mas o que ela podia fazer comigo, afinal? Meus olhos perderam-se na lua, no céu estrelado e límpido de Graceland. E então eles se fecharam, atirando-me na escuridão que me era tão íntima. Aos poucos, meu organismo respondeu às minhas tentativas de acalmá-lo. O ruído da porta do carro se abrindo fez-me alerta, mas eu estava estranhamente relaxado, então.

— Você não pode fazer isso. – Eu disse, sabendo que ela estava ali, tão perto. – Eu poderia tê-la machucado… Heather, você parece não entender que eu posso te matar.

Virei-me para ela e toquei-a com força, cravando meus dedos em seus ombros e mantendo-a firme no chão. Meus olhos certamente estavam escuros como aquela noite, mas ela parecia o sol de verão à minha frente.

— Qualquer um pode me matar. Eu me joguei na frente de um carro, eu obviamente estou louca. Poderia ter sido qualquer um.

— Mas fui eu.

— O que foi aquilo, lá no Clayton’s? E por que você saiu correndo?

Eu não tinha aquelas respostas. Não precisava pensar para saber que eu não tinha meios de oferecer a ela uma resposta convincente para as razões da minha fuga. Mas ela exigia que eu falasse alguma coisa, mesmo que fosse estúpido.

— Eu não sei. Talvez eu também não esteja sabendo muita coisa ultimamente. Eu não posso, Heather. Eu não sei fazer isso. Não mais.

— Isso eu não sei o que é, também. Quero dizer, não use enigmas, Henry. Eu sei que estou louca, não precisa me deixar mais insana. Você me prende em sua casa como se eu fosse o almoço, e depois cozinha para mim. Você me libertou mesmo sem ter como saber que eu não exporia você. Você se veste como um adolescente de dezoito anos e vai até o bar mais movimentado da cidade. Bebe cerveja, conversa com minha melhor amiga, arranca suspiros até das mulheres mais bem casadas de Graceland e então foge de mim como se o que você estivesse querendo fazer fosse um problema? Seja o que for que esteja fazendo, você sabe fazer sim! Talvez você não queira, ou não ache ideal no momento, mas você sabe fazer.

Eu não esperava por um desabafo daqueles. O hálito alcóolico que exalava de seus lábios vermelhos me indicava que ela estava embriagada, mas eu não tinha certeza daquilo. Ergui uma sobrancelha e passei a língua por meus dentes; estavam todos intactos e no lugar. Meu lábio inferior já estava cicatrizado plenamente, e não havia nada acontecendo naquele meio de nada que me impedisse de fazer exatamente o que eu faria. Pisquei duas vezes, respirei fundo, e deixei acontecer. Eu estava com as duas mãos em seu corpo, no lugar exato para forçá-la contra mim e beijá-la.

Nossos lábios se encontraram ansiosos demais, e eu temi que pudesse feri-la. Mas ela não reagiu de forma negativa ao beijo, pelo contrário. Senti que seus músculos amoleceram em meus braços, as batidas fortes de seu coração, o sangue morno em suas veias. Abandonei o controle, ignorei as convenções; eu quis beijá-la desde a primeira vez que a vi. Cada segundo que ela passou na estalagem, cada vez que eu a olhava e cada palavra que ela me dirigia era uma tortura porque eu desejava apenas fazê-la calar em meus lábios. Era ridículo, eu sabia, mas havia necessidade de lutar contra aquilo, se ela parecia querer exatamente a mesma coisa que eu?

Foi naquele momento que eu tive duas certezas. Eu não desejava o sangue de Heather; não somente o sangue. Eu não me transformei durante o beijo; eu não senti a irresistível vontade de cravar minhas presas nela – e aquilo era porque Heather não era o jantar. Ela tinha significado para mim, e eu ainda precisava descobrir qual. A segunda, eu tinha perdido completamente o juízo que me restava.

— Eu não queria te envolver. – Tomei coragem de me separar dela por um instante, mas mantive-nos conectados de alguma forma. – Quero dizer, eu queria. Mas eu preferia não te envolver. Eu nunca fiz isso antes.

— Tarde demais. E eu nem vou mesmo acreditar que nunca fez isso, senhor vampiro de seis séculos de vida.

Ah. Ela não entendeu.

— Eu quis dizer que nunca fiz isso com outra criatura. – Dei uma risada baixa, e a encarei. – Isso foi extremamente rude, lamento. Mas é verdade, depois que me tornei vampiro, eu nunca me envolvi com outra espécie.

— Acho que você dá conta. – Ela tinha o sorriso mais iluminado que eu já tinha visto.

— Stuart vai achar tudo isso muito divertido. Serei motivo de riso.

— Isso incomoda você?

— Não. – Torci os lábios e resisti à tentação de beijá-la novamente. O grande problema era que eu sabia que não queria beijá-la, apenas. Eu estava completamente à mercê dos meus instintos, e aquilo era um absurdo de tão bom. – Mas é bom estar preparado para todo tipo de reação dos meus.

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